Zora Yonara - escritos

Vivências da Homofobia na Adolescência

11:15 AM, 13/5/2008 .. 0 comments .. Link

              A homofobia é um termo conceitual, o qual se refere á aversão ou o ódio irracional aos homossexuais. A discriminação e a violência se materializam com práticas de opressão e humilhações àqueles que têm orientação sexual diferente da heterossexual. Podendo ser expressa de modo velado e com atitudes preconceituosas, a homofobia poderá estar presente, no trabalho, na escola, na família, através de atitudes homofóbicas que levam à injustiça e à exclusão, ferindo a dignidade humana.

A palavra homofobia, (homo= igual, fobia=do Grego φόβος "medo"), originou-se em 1971, quando o psicólogo George Weinberg, em sua obra impressa, utilizou as palavras gregas phobos ("fobia"), com o prefixo homo. Fobia seria assim um medo irracional (instintivo) de algo, porem poderá ser utilizado como aversão ou repulsa. A partir desta conceituação, pode-se afirmar que a homofobia esta arraigada e presente na vida dos adolescentes, estes aparecem tambem como sujeitos desta estrutura perversa que exclui e violenta.

No Brasil registra-se um crime de ódio anti-homossexual a cada três dias. As idades variam de 12 a 82 anos(GGB), o que leva a identificar que os/as adolescentes estão também dentro das estatísticas de homicídios por homofobia.

            A homofobia reflete-se na vida dos/as adolescentes por meio de elementos cruéis, destacando-se a desconstrução de suas identidades, especificamente relacionada à orientação sexual, muitos/as relatam sentir um peso insuportável e desespero quando pensam na família e quando contaram para seus responsáveis sofreram insultos, humilhações com freqüência, não tiveram apoio e as torturas psíquicas, físicas e verbais levaram a uma postura de fuga, negação ou encorajamento para romper com o estado de violência.

            Nos casos os quais pesquisei, as famílias reagiram de maneira contrária à homossexualidade dos seus filhos e filhas. São inúmeras a histórias de violência e homofobia, como exemplo a história da lésbica D., na ocasião da agressão sofrida tinha 17 anos, relatou que no momento em que se assumiu para sua mãe, esta reagiu de forma contrária e chamou o irmão mais velho para que desse uma lição e a corrigisse, sei irmão a jogou contra a parede e bateu muito nela. D. foi parar no hospital, sua própria mãe a levou, na ocasião o médico perguntou o que teria acontecido, a mãe disse que ela caiu, mas o médico insistiu e a mãe relatou que foi briga de irmãos. O médico perguntou se D. queria denunciar, mas por medo não contou o que aconteceu e logo depois fugiu de casa. Casos como estes são comuns entre os/as adolescentes que silenciam a agressão sofrida por medo.

Desta forma, pensar a homofobia é também pensar a questão de gênero, gays e lésbicas de maneira específica vivenciam humilhações, agressões e insultos presentes nas relações familiares, mas é importante destacar que como a violência sempre está relacionada ao poder e culturalmente as mulheres estão á margem, as lésbicas adolescentes se encontram em desvantagem e considerando sua condição estão mais vulneráveis as imposições machistas e heterossexistas determinantes.

 Razões que levam à rejeição de práticas sexuais:

As razões que levam ao desrespeito é o medo irracional ou aversão contra os/as homossexuais. A história apresenta inúmeros fatos que promoveram esta intolerância e desrespeito a dignidade humana. A igreja, a sociedade, o Estado sempre estiveram presentes nesta materialização da homofobia, assim ao negar a parceria civil registrada para os casais homossexuais, o Estado contribui para a que a violência se propague.

A ignorância e o preconceito societário, também permitem que atos violentos se propaguem, assim as piadas que se contam, as imitações de gestos comuns as lésbicas e gays, um olhar pode fazer um homossexual sentir-se mal.

Recentemente a pesquisa “Juventudes e Sexualidade” da UNESCO, envolvendo milhares de estudantes brasileiros de ensino fundamental, seus pais e professores, revelou que os professores não apenas tendem a silenciar frente à homofobia, mas muitas vezes colaboram ativamente na reprodução de tal violência, e mais de um terço dos pais de alunos não gostaria que homossexuais fossem colegas de escola de seus filhos/as.

A pesquisa:

Nesta pesquisa pode-se constatar que existe um ciclo da situação de homofobia/violência intrafamiliar, este ciclo é composto de fases que se manifestam na medida em que a/o adolescente revela sua orientação sexual, seu desejo afetivo/sexual por pessoas do mesmo sexo para os/as responsáveis.

As fases da homofobia intrafamiliar são:

  1. Conflito: Há um acúmulo do conflito que se manifesta por meio de atritos, com insultos e ameaças, nasce de uma desconfiança sobre a orientação do/a adolescente;
  2. Agressão psíquica e verbal: Há uma descarga descontrolada de desconfiança e o conflito aumenta, o agressor/a atinge a/o adolescente com xingamentos, humilhações, a exemplo, “prefiro ter uma filha puta do que sapatona, ou um filho ladrão do que bicha”. Daí vem à tortura, afasta a/o adolescente dos/as amigos/as, tentando isolá-lo/a, trancando dentro de casa, obrigando a ir ao médico, psicólogo e a igreja, depois vem a indiferença, que consiste no silêncio ou na rejeição de carinho por parte deste filho/a.
  3. Violência física: bate, espanca, utiliza objetos para bater e marcar como ferro, pau, garrafa, até a expulsão da casa ou fuga por parte do/a adolescente.

 Quadro exemplificador: Conflito, sustentação do conflito, HOMOFOBIA, Passividade/dominação e/ou ruptura com a familia. 

  Conseqüência:

Infelizmente a violência/homofobia mergulha este/a adolescente num poço sem fundo, com muitas dúvidas este/a adolescente que não conta com o apoio familiar, tem a sua saúde física e emocional abalada, percorrendo um caminho doloroso de abandono. A homofobia/violência intrafamiliar deixam marcas na vida deste/a adolescente, com conseqüências desastrosas como desenvolver depressão, ansiedade, insegurança, baixa auto-estima e até mesmo algum grau de fobia, além de comportamentos autodestrutivos e tentativas de suicídio.

Segundo dados do IPA - Instituto Paulista de Adolescência, 7% dos suicídios cometidos por adolescentes e jovens estão relacionados a conflitos com a identidade sexual. As lembranças da homofobia/violência na família são sempre muito dolorosas, e podem em alguns casos serem carregados ao longo de toda a vida como feridas difíceis de cicatrizar.

 Instrumentos para o enfrentamento da violência contra os/as adolescentes homossexuais:

O desafio é garantir que o direito das/os adolescentes seja respeitado, por meio dos instrumentos jurídicos e sociais como ECA, Brasil sem homofobia, Lei Orgânica Municipal ou Estadual, rompendo com a invisibilidade da sua condição e denunciando a homofobia/violência. A exemplo:

Estatuto da criança e do adolescente:

Art. 5° – Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, punido na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais.

Art. 18 – É dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor.

Brasil sem homofobia:

IX – Política para a Juventude:

• Apoiar a realização de estudos e pesquisas na área dos direitos e da situação socioeconômica dos adolescentes GLTB, em parceria com agências internacionais de cooperação e com a sociedade civil organizada;

• Apoiar a implementação de projetos de prevenção da discriminação e a homofobia nas escolas, em parceria com agências internacionais de cooperação e com a sociedade civil organizada;

• Capacitar profissionais de casas de apoio e de abrigos para jovens em assuntos ligados a orientação sexual e ao combate à discriminação e à violência contra homossexuais, em parceria com agências internacionais de cooperação e a sociedade civil organizada;

Assim, a promoção de Políticas Publicas, estas que são práticas coletivas e representam ações ou mediações político-institucionais, definidas principalmente pela existência de recursos públicos e pelos mecanismos de intervenção do Estado na sociedade, permite que haja um arcabouço jurídico-legal em que serão elaboradas e normatizadas ações institucionais, projetos ou programas de ações decorrentes deste referencial jurídico, promovendo de maneira eqüitativa ações não discriminatórias as quais subsidiam os direitos sociais dos/as homossexuais.

Gostaria de citar Marisa Fernandes que afirma:

“As jovens que se descobrem lésbicas, e que vivem com seus pais, são as que mais sofrem violência. A família reprova a lesbianidade da filha e procura impor a heterossexualidade como normalização da prática sexual do indivíduo... os pais buscam sujeitar e controlar o corpo das filhas lésbicas, lançando mão de diferentes formas de violência, como os maus-tratos físicos e psicológicos... é o exercício do poder, utilizado como ferramenta de ensino, punição e controle.”

Sendo assim, pensar na emancipação e autonomia dos corpos dos/as adolescentes é uma forma de romper com a opressão imposta pela sociedade, este é um passo importante na desconstrução da homofobia, o exercício da sexualidade livre de opressões é um direito dos/as adolescentes. Por conseguinte, a educação e o diálogo torna-se uma saída, muitas iniciativas como a criação de grupos de adolescentes homossexuais é uma forma de discutir as dificuldades relativas à homossexualidade nessa faixa etária.

            Portanto, criar canais que possibilitem a discussão dismistificando o que esta envolta a este tema, é uma maneira de empoderar os adolescentes que vivenciam a homofobia na adolescência. O silêncio pode matar.

 Autora – Zora Yonara – Assistente Social, Especialista em Filosofia e escritora, atualmente Coordena o Departamento de Responsabilidade Social do Teatro MAPATI.  (61)92744136




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