Zora Yonara - escritos

O corpo político feminista e lesbiano: interação possível

02:34 PM, 20/6/2008 .. 0 comments .. Link

Foto: Zora Yonara

A política sempre esteve dinamizada por profundas transformações. Com efeito, compreender estas transformações levou a questionamentos para construir eixos e estabelecer elos analíticos sobre a história dos acontecimentos político-filosóficos, a exemplo o feminismo e o lesbianismo[2], conduziu este trabalho a buscar o entendimento da ação política na sociedade contemporânea, permitindo apreender o sentido de pluralidade e interação entre estes corpos.

Para Hannah, Compreender significava enfrentar sem preconceitos e com atenção a própria realidade, qualquer que fosse, e resistir a ela, em vez de negar a atrocidade ou atribuí-la a precedentes históricos (Birulés, 1997).

Assim, compreender o conceito de feminismo e lesbianismo permite avanços na discussão sobre a questão posta. No século XX havia uma maior abertura de questões sobre a sexualidade, possibilitando uma aproximação entre estes corpos, mas surge a questão é possível a interação?

Para tanto é preciso evitar preconceitos como afirma Hannah, e não estruturar uma veracidade incondicional, como se apenas existisse somente única leitura, afinal as verdades absolutas são rochas não se movem, e sendo assim, ao estar no mundo há uma constância do novo, não existindo algo acabado, e como afirma Navarro “quem estiver vestido no cimento de suas certezas não mergulhe nestas águas” (Navarro 2000: p. 9).

Esta compreensão aparece como um fator revolucionário politicamente para os corpos feminista e lesbiano, pois seus conceitos se contrapõe as determinações sociais impostas as mulheres como uma onda em constante movimento.

O feminismo aqui descrito reflete a cerca da opressão e denuncia o patriarcado para romper com a dominação secular e subalternidade das mulheres. Segundo Arendt “A partir do momento em que o grupo, do qual se originará o poder desde o começo (potestas in populo, sem um povo ou grupo não há poder), desaparece, “seu poder” também se esvanece.” (Arendt, 1994:36)

Assim, o feminismo[3] é definido como um movimento político de mulheres que lutam pela eqüidade, mantendo em certo sentido a discussão sobre o poder patriarcal, questionando o patriarcado, o poder do pai.

Este originu-se na Europa Ocidental a partir do século XVIII, rompendo com o grupo dominante. No entedimento filosofico o feminismo aparece após o fenômeno do iluminismo, com pensadoras como Mary Wortley Montagu e a Marquesa de Condorcet, lutadoras da educação feminina.

As grandes revoluções fazem incorpar a concepção de feminismo que ganha corpo politico e reivindicatório, e é com os partidos politicos que o movimento ganha força de expressão. Com o advento do capitalismo e a Revolução Francesa surgem os partidos de esquerda onde as mulheres encontram espaço para as suas manifestações.

O corpo feminista conseguiu uma série de avanços na sociedade ocidental: o sufrágio universal, proteção legal para trabalhadoras gestantes, criação de delegacias específicas para mulheres, abolição de algumas leis misóginas, incorporou tambem a defesa do corpo lesbiano, o que obviamente foi conquistado por este, mas levou um certo tempo para a realização da interação. Sendo assim, na atualidade o feminismo promove direitos para as mulheres, e isto independe da participação em partidos.

O feminismo proporcionou a reconciliação das mulheres com a realidade que se reconhecem nas constantes mudanças no mundo, de maneira a sobressair a pluralidade no agir.

A pluralidade permite o aprimoramento de reflexões, e em relação ao corpo lesbiano, o corpo feminista levou tempo para compreender a revolução deste.

O corpo lesbiano fora então marcado por um imbricamento e oposição do corpo feminista, que desconhecia o corpo lesbiano este despolitizado, pois não estava dentro do que se instituía como verdade política e bandeira feminista no periodo, a exemplo o direito ao voto, direito das trabalhadoras e a emancipação do século XIX.

No período de 60, 70, 80 e 90, o feminismo brasileiro se transformou, cotidianamente em cada luta, a cada derrocada, a cada enfrentamento e também nas conquista. Porem é com as contestações no período de 60, a qual tinha como bandeira a afirmativa de que o “pessoal é político”, pode-se afirmar que tal afirmação torna o processo emanciapatorio denso e reflexivo sobre o que é política, possibilitando o zoon politikon, ou seja, a participação de outros atores, especificamente o corpo político lesbiano.

Segundo Beatriz Suárez Briones

Os anos 60 foram a década da segunda onda feminista. Dentro do movimento feminista cada vez mais mulheres se sentiram livres para se intitularem feministas lésbicas; (…)As feministas lésbicas declararam que lésbica era qualquer mulher que dedicava todas as suas energias a outras mulheres. O lesbianismo passou a ser considerado a quintessência do feminismo, porque o feminismo lésbico significava pôr as mulheres primeiro no afectivo, no social, no político e no sexual, (...) ação que altera até à raiz a concepção patriarcal; significava materializar um tipo de relação revolucionária (… ).

 

Sendo assim, as questões inerentes ao corpo lesbiano aparecem publicamente promovendo uma reflexão de questões até então abordadas como específicas do privado. O corpo lesbiano agora interagindo com o corpo feminista resignifica e compreende o pluralismo como também um novo agir.

Para tanto é preciso compreender a concepção do termo lésbica que originalmente referia-se às habitantes da ilha de Lesbos, na Grécia. Na antigüidade, entre os séculos VI e VII a.C., morava naquela ilha a poetisa Safo, admirada por seus poemas sobre amor e beleza, em sua maioria dirigidos às mulheres. Por esta razão, o relacionamento amoroso entre mulheres passou a ser conhecido como lesbianismo ou safismo.

O corpo político lesbiano carrega signos históricos disciplinadores e de controle, este corpo fora submetido a métodos coercitivos e punitivos adotados pelas esferas públicas e privadas.

A desqualificação do corpo lesbiano, por vezes denominado de radical e separatista, esteve por um período excluído politicamente de ensaios discursivos, mas pautado nas reflexões feministas, pelo incomodo que causava, este corpo provocava terror e incompreensão, permeado de doxa.

Assim para Hannah, em um mundo humano normatizador o terror consegue se instaurar, o isolamento político é a condição necessária para consagrar o regime totalitário e desta maneira, o corpo lesbiano apesar desta marca de exclusão sempre esteve interada ao corpo feminista em suas reflexões a ações, permitindo uma ruptura com a dominação binária determinista que submete os corpos a um lugar.

Esta desqualificação, este lugar posto para o corpo lesbiano remete a centralização do poder patriarcal, a um totalitarismo, para Hannah o totalitarismo acontece quando não há laços políticos e sociais e o impedimento da livre manifestação do pensamento.

O isolamento pode gerar tirania, esta se caracteriza por cerrar o alicerce da força dos espaços públicos existentes, conseguindo estagnar qualquer possibilidade de ação política, de diálogo e de fala sobre questões que lhes sejam comuns, o que permite o aparecimento do totalitarismo.

Para Hannah, o poder não se resume apenas na capacidade de ação de um único indivíduo, ou na capacidade de impor uma vontade a outros, é além, o poder surgi através do acordo relacional entre os indivíduos que resolvem agir da mesma maneira.

Deste modo, poderá surgi a interação entre o corpo feminista e lesbiano? Para Hannah não somos seres políticos por natureza, pode acontecer entre nós ou não.

A interação entre os corpos descritos, tem como característica a pluralidade humana, e esta é possível graças à singularidade constituinte de cada qual, denotando a vontade geral, ou seja, a promoção de direitos eqüitativos entre gêneros, possibilitando uma ruptura com o tirania machista.

Assim a interação aparece como fio condutor de uma dialogicidade política, que existe quando os corpos feminista e lesbiano agem e comunicam-se coletivamente, o que requer um espaço para a interação que acontece através da ação e da palavra.

O não se sujeitar a outro ente hierarquicamente, por força ou poder, constitui-se uma revolução, ampliando assim o espaço político, permitindo o rompimento com o isolamento e fazendo acontecer a pluralidade.

A partir do agir e da condição de reger o próprio fado, dar-se-á significação ao desenvolver das atividades em consonância com os outros, atribuindo-se deste modo ao corpo lesbiano o sentido político. A ação e a política só podem ser compreendidas na vontade geral. A ação política precisa da diferença, sendo a coexistência com a diversidade que torna abastado o debate público, o que dá sentido à interação entre o corpo lesbiano e feminista.

Considerando que estes corpos se encontram, mas se distanciam durante o percurso ontológico. O diálogo permeia e permite a interação dos corpos possibilitando uma pluralidade dissociada de interesses meramente privados, permitindo assim o discurso no espaço público entre os corpos feminista e lesbiano, surgindo novas perspectivas políticas, assim para a filosofia a constatação desta pluralidade em certo sentido poderia representar o inicio de um debate dinamizado pela convivência, possibilitando a interação, e em meio a uma “(...)a vontade geral (...) mediada por um interesse universal, e não particular.” (Milovic, 2002:45)

Referência:

ARENDT, Hannah. Sobre a Violência. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1969; 1994

_____________ 1989, Entre o Passado e o Futuro. 2ª Ed., São Paulo, Perspectiva.

_____________ 1998, O que é Política. Rio de janeiro, Bertrand.

_____________1993, A Dignidade da Política, Rio de Janeiro, Relumé-Dumará

_____________1981, Origens do totalitarismo, Rio de Janeiro, Companhia das Letras

BIRULÉS, Fina. 1997. "La Pasión por Comprender". Archipiélago, 30-

MILOVIC, Míroslav. Filosofia da Comunicação, para uma critica da modernidade. Brasília: Editora Plano, 2002, p. 310.

NAVARRO-SWAIN, Tania. O que é lesbianismo. São Paulo: Brasiliense, 2000. 101p

 

Informação de Internet (www):

DIALNET. Disponível em <http://dialnet.unirioja.es/servlet/listaarticulos?tipo_busqueda=EJEMPLAR&revista_busqueda=143&clave_busqueda=11689> Acesso em 02 jun de 2008;

WIKIPEDIA. Feminismos http://pt.wikipedia.org/wiki/Feminismo. Acesso em 03 jun. 2008

WIKIPEDIA. Lesbianismo http://pt.wikipedia.org/wiki/Lesbianismo. Acesso em 03 jun. 2008

UNB. Disponível em: http://www.unb.br/ih/his/gefem/labrys7/liberdade/anaalice.htm. Acesso em 05 jun 2008

Notas:
[2] Há uma discussão a cerca do final “ismo” que denotaria doença, então lesbianismo denotaria doença, o termo mais utilizado na atualidade é lesbianeidade. (Nota minha).

A pratica homossexual não é mais considerada uma patologia sendo consenso na comunidade de psicólogos, filósofos e médicos, por fim acredito que o sufixo ismo não é utilizado apenas para designar doença, o mesmo sufixo é utilizado para indicar teorias, movimentos sociais, correntes de pensamento, por esta razão utilizo a palavra lesbianismo no artigoo como movimento social.

[3] No verbete equivalente em inglês temos a definição de feminismo como uma ideologia que objetiva a igualdade - ou o que seria mais preciso - a eqüidade entre os sexos. Contudo, há autoras feministas que procuraram demonstrar como a própria concepção de sexo biológico advém de uma compreensão simbólica do mundo que é orientada pela concepção de gênero. O verbete equivalente em francês define feminismo como um conjunto de idéias políticas, filosóficas e sociais que procuram promover os direitos e interesses das mulheres na sociedade civil. No entanto, os feminismos, em suas múltiplas formas (como veremos a seguir), estão relacionados a desejos, políticas e interesses de outros grupos civis, não somente de mulheres. <http://pt.wikipedia.org/wiki/Feminismo >

Autora: Zora Yonara, Assistente Social, Especialista em Filosofia. email: zorayona@ig.com.br. Fone(61) 92744136.




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